A história do Ramayana começa, como a maior parte das narrativas védicas que versam sobre a vinda de um avatar, com a impotência e lamentação dos semideuses diante da força e perversidade de um grande e imbatível demônio que atormentava o universo. Seu nome era Ravana, ele era poderosíssimo e havia recebido, mediante longas penitências, as bênçãos de Brahma para que nenhum deus ou demônio pudesse vencê-lo em batalha. Assim foi que o demônio, considerando-se praticamente invencível, menosprezou a capacidade dos seres humanos, pois sequer lembrou-se de pedir ao deus Brahma imunidade contra estes, julgando-os inferiores.
Enquanto Ravana tornava-se famoso por espalhar terror sobre a Terra, às margens do rio Sarayu, na fabulosa cidade de Ayodhya, o rei Dasaratha organizava uma grande cerimônia de sacrifício aos semideuses, rogando a estes as bênçãos de obter um filho para ser o seu sucessor. Foi assim que, atendendo ao pedido dos semideuses ali presentes, o Deus Supremo Vishnu decide encarnar entre os humanos, como o filho do rei Dasaratha, para combater o demônio Ravana. Após a cerimônia, Dasaratha recebe a bênção de gerar quatro filhos no ventre de suas três esposas. Vishnu encarnou como os quatro irmãos ao mesmo tempo, estando metade de seu poder e esplendor presentes em Rama, e outra metade dividida entre os irmãos Bharata, Lakshmana e Satrughna.
De volta à cidade de Ayodhya, é chegado o momento em que o rei Dasaratha decide coroar Rama, o seu filho mais velho, entregando-lhe seu reinado. Foi então que sua esposa mais nova, mãe de Bharata, utilizando-se de antigas promessas, organiza uma trama para coroar seu próprio filho no lugar de Rama, e ao mesmo tempo faz com que Rama tenha de ser banido do reino e tenha de viver em exílio na floresta por quatorze anos. Sua inseparável e amada esposa Sita escolhe acompanhá-lo no exílio, assim como o faz seu irmão mais novo Lakshmana.
A vida na selva, embora penosa e cheia de austeridades, revela-se auspiciosa e repleta de oportunidades para o crescimento espiritual. Naquela época, as florestas eram repletas de eremitérios e ashrams, locais de refúgio e meditação onde os grandes sábios e ascetas viviam, e onde as verdades espirituais mais elevadas eram preservadas e ensinadas. Sita, Rama e Lakshmana viveram entre estes eremitérios e ashrams, e embora eles mesmos fossem a personificação da Verdade Absoluta, os próprios Vishnu e Lakshmi, em sua aparente forma humana eles se comportavam como seres humanos e aprendiam com os sábios.
Certo dia eles estavam em suas cabanas na floresta quando Ravana, tomado de luxúria, cria uma cilada para seqüestrar a princesa Sita. Esta é então levada para Lanka, a ilha onde residia o demônio, seus súditos e exército, e forçada a viver em cativeiro. Ravana era a própria personificação da luxúria, utilizando-se de seu poder, ele vivia fazendo tramas para raptar belas mulheres e mesmo esposas de semideuses, forçando-as a tornarem-se suas esposas. Porém a casta princesa Sita, totalmente devotada e fiel ao seu esposo Rama, recusa-se mesmo diante das mais aterrorizantes ameaças a permitir que o demônio a tocasse.
A partir desta ocorrência, o épico propriamente dito toma início. Rama parte em busca de Sita, combate o demônio e resgata sua amada esposa. Em sua guerra contra os demônios, Rama recebe a ajuda de um exército de macacos e ursos, filhos dos semideuses, entre os quais se destacam Hanuman e Sugriva. O épico termina com os demônios sendo mortos, e Rama sendo finalmente coroado rei de Ayodhya. Porém, a história não tem um final totalmente feliz. Por pouco tempo Rama e sua amada Sita puderam viver juntos. Sita está grávida e suspeitas correm entre os lábios da população de Ayodhya, colocando em dúvida a sua castidade, lembrando que esta teve de viver por um ano sobre as garras do demônio Ravana. A parte trágica da história é que Rama, mesmo sabendo que Sita jamais fora tocada pelo demônio enquanto esteve em cativeiro, foi forçado a tomar a atitude de bani-la do reino. Rama, enquanto rei, era o exemplo de justiça, retidão e honra para todos, de modo que um rei jamais poderia aceitar a incastidade de uma esposa. Com grande pesar em seu coração, Rama tem de enviar Sita para viver na floresta, aos cuidados do sábio Valmiki. Por amor e em proteção da honra de seu marido, Sita aceita o triste destino de viver longe de seu amado, até que a morte viesse a uni-los novamente nos reinos celestiais.
Durante todo o tempo em que viveram, Sita e Rama estiveram aparentemente inconscientes de suas verdadeiras naturezas enquanto encarnações das divindades supremas de Lakshmi e Vishnu, e foi apenas no momento de suas mortes que foram lembrados de suas opulências divinas: Sita foi levada pelos braços da Mãe Terra, a qual era uma expansão Dela própria, enquanto Rama foi lembrado por Brahma, o demiurgo, de que Ele mesmo era a origem e dissolução de tudo, e de que uma vez que sua missão na terra tinha se cumprido, Ele então deveria retornar ao reino espiritual, de onde paradoxalmente jamais esteve ausente.
