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ArtigosAs Vozes da Memória Por Sri Damodara d.d. (Evalda de A. Silva Costa) em 17/06/2008 Um Romance Histórico da Comunidade Nova Gokula, do Movimento Hare Krsna, localizada no Ribeirão Grande, Pindamonhangaba.Uma homenagem a Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedhanta Swami, que abriu as portas para o mundo espiritual no Ocidente, a Hrdayananda das Goswami a quem tentamos sinceramente servir e seguir os passos e a todos que direta e indiretamente participaram e continuam a participar desta Verdade que é Nova Gokula Dhama. Por Sri Damodara d.d. (Evalda de A. Silva Costa)
Esta é uma história que assim como todas as demais vão se tecendo com o tempo, se firmando com as gentes, que vão e vêm, que passam ou ficam, como os grãos de areia na praia. Porém, ela não é comum, caso se presuma assim ainda no início. Esta história, com seus anos passados, é uma visão de mundo em construção, que se alonga aos por vir. Esta história, atando ou desatando laços, errando ou acertando os passos, é um construto de mundo que nunca pára. Esta história será contada sem a rigidez da linguagem histórica e sem exageros de sentimento. Mas que ela surja, então, romanceada, em linguagem limpa, clara, vibrando no papel igual vento. Tudo parte de um pequeno grupo de pessoas que se reúnem para praticar um objetivo de vida, conforme as idealizações pré-estabelecidas por uma grande líder. Porém, o que fazer quando as contradições do pensamento e ação humana emergem, provocando confrontos com esse objetivo aceito coletivamente? Restam, assim, dois caminhos: ficar e seguir, deliberadamente, a meta, ou romper com ela. Esta história é, portanto, um sincero confronto, onde as dificuldades da convivência humana são a prova diária para a compreensão da espiritualidade pura: o desenvolvimento de afeto por Deus, cujo nome na antiga língua sânscrita é Krsna, o Todo Atrativo. A visão dos pioneiros Tudo começou do pó. As terras roxas de outrora, que foram leito por décadas e décadas do café de exportação e de pasto para criação de gado, agora estavam exauridas, ácidas, secas e sem brilho assim como uma mãe carece do leite destinado a sua progênie. Foram épocas de plantio e colheitas que visavam ao lucro rápido. Épocas em que o ritmo da auto-reposição e conservação da Terra feita pela própria Natureza Mãe devia ser transgredido. Assim, o Vale do Paraíba, fazendo uso de uma política predatória dos recursos naturais, vivera seus tempos áureos de desenvolvimento econômico. Porém, caminhando-se sobre aquele solo, poder-se-ia sentir a presença da densa cobertura vegetal de outrora. Poder-se-ia saber que ali imperava a imponente Floresta da Mantiqueira, reduto de Vida, de fauna e flora, santuário alterado e quase destruído pela desenfreada necessidade de poder e ostentação, que causam ao homem sua própria decadência. E, num belo início de inverno de 1978, Os pioneiros, enviados de lugares diferentes do mundo, congregados em prol de um ideal espiritualista – alternativo para aqueles dias, mas eterno e universal – passeavam por aquela terra, analisando-a e medindo as vantagens de obtê-la, bem distintas das que estavam habituados a ter os seus proprietários anteriores. Ao contrário desses, cantavam os Santos Nomes “Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare”, no intuito de fazer aos outros a melhor de todas as boas ações: relembrar-lhes suas natureza espiritual e relação eterna com Deus, assim como acontecera a eles mesmos, desde que se conectaram à missão de A.C. Bhaktivedhanta Swami Prabhupada, que foi diretamente incumbido por seu Mestre espiritual Bhaktisidhanta Sarasvati Thakura de propagar a Consciência de Krishna nos países Ocidentais. Porém, embora tivesse sido desumanamente explorada, “Uma Sorte de Terras”, nome destinado à propriedade rural, situada no Bairro do Ribeirão Grande, município de Pindamonhangaba, São Paulo, que por muito tempo deu regozijo e dinheiro aos barões do café, conservava sua beleza ímpar. E, situada dentre as montanhas, num vale cortado por rios de água cristalina, onde os primeiros raios do Sol presenteavam os primeiros movimentos do dia, ela constituiria agora uma História diferente da que tivera, tecida à exploração e violência, cujo cheiro do passado – com os sons das sacas de café sendo transportadas pelos negros trazidos de África, com os gritos dos feitores, ordenando pressa e agilidade no trabalho de colheita, com os risos dos donos da Terra que se sucederam ali rastreando dinheiro e posses, e com as noites festeiras nas senzalas, momentos em que os escravos procuravam a liberação de suas dores e rancores na dança e bebida – estava prestes a se exilar na memória. Aos olhos dos Pioneiros, “Uma Sorte de Terras”, mesmo cheia de cicatrizes, carregadas nos uivos do vento repleto de queixas sorrateiras, às vezes muito frescas e vivas, transformar-se-ia na maior Comunidade do Movimento para a Consciência de Krishna da América Latina. Nova Gokula seria seu nome e ali pessoas do mundo inteiro convergiriam, ávidas pelo encontro com uma vida que tivesse um real sentido, repleta de significado em suas existências. Gokula, em sua etimologia, significa a morada das vacas. Na cultura Védica, esse animal detém estima e respeito, porque provê com o leite e seus derivados a sociedade humana. Nova, porque esta seria constante lembrança da Gokula original, descrita detalhadamente em Escrituras como o Bhagavata Purana. Assim, era o futuro, pulsante em seus corações, tão promissor para eles e para o mundo, tão verdadeiro e nítido que incutia-lhes inspiração e esperança para serem bem sucedidos naquela grandiosa empresa que se iniciava. Os Pioneiros eram os devotos de Krishna, em sua maioria, discípulos diretos de A.C. Bhaktivedhanta Swami, carinhosamente tratado por Srila Prabhupada. E suas vidas lhe estavam rendidas. Porque sabiam que seus esforços, aplicados visando ao bem de todos, revelaria a Realidade mais sublime e almejada: o segredo do amor ao mestre espiritual e a Deus, Krishna. 1978 O encontro com ‘Uma Sorte de Terras’ exigiu muito esforço do grupo de Pioneiros formado por Loka Saksi das, Alanatha Swami, Mahavira das e Catur Murti das que há seis meses procuravam por um lugar adequado para iniciarem um projeto de Comunidade rural. Durante suas andanças, puderam se aproximar de várias possibilidades e quase conseguiram fechar negócio com uma terra em Petrópolis, chamada Nova Ayodya. Porém, a pessoa de quem fariam a compra se mostrou hesitante e não demorou muito para que os Pioneiros chegassem a conhecer aquela que seria definitivamente Nova Gokula. A caminho das terras no Ribeirão Grande, já puderam sentir o quão ali era especial e propício à prática de Bhakti-Yoga ou conexão com Deus. Haviam se adentrado numa área onde a mata ciliar ainda era bem conservada. E o rio, perene e caudaloso, convidou os aventureiros de Krishna a um refrescante banho. Naquela tarde, o sol se infiltrava com seus raios na mata, tornando visíveis os detalhes do leito do rio. Dentro daquelas águas, que posteriormente seriam chamadas de Rio Yamuna – trecho destinado a cortar Nova Gokula, eles logo perceberam os bons sinais que o local apresentava. Observavam a tudo, com olhos aquilinos. Nada lhes escapava. Deviam fazer o melhor serviço a seu Mestre espiritual, que sempre continuava a lhes inspirar pelo coração. Assim, a escolha da terra estaria pautada nas reais possibilidades de desenvolvimento de uma Comunidade para o cultivo da distinção entre a alma espiritual e o corpo. Não podiam falhar. Muitas pessoas dependiam deles. Porém, a convicção brotou-lhes vigorosamente depois que conheceram a propriedade. Já até podiam fazer planos, ver projetos, idealizar e viabilizar metas. Não tinham dúvidas dessa verdade. “TUDO NOSSO, KRISHNA!” Diziam uns para os outros aquelas palavras mágicas, sincopadas, porém ricas em poder e determinação! O início de todo grande empreendimento, muitas vezes, é árduo. E o que dizer quando se pretendia ajudar a Terra a se recompor dos abusos que sofrera e legitimar os universais valores apregoados pela conclusão das Escrituras milenares da Antiga Índia, os Vedas? Estava tudo fora do lugar: a propriedade possuía apenas uma casa velha e algumas pequenas benfeitorias. Suas terras, inaptas para o cultivo precisavam de ajuda e tempo para retomarem força. A floresta e os animais típicos se refugiaram nas montanhas e encostas. Não, o ideal de ‘vida simples e pensamento elevado’ não seria possível sem a harmonização com a Natureza, sem a preservação do meio ambiente. Por outro lado, a região era altamente estratégica: situava-se a 135 Km. de São Paulo e 300 do Rio de Janeiro. Além do mais, acima da propriedade, cuja altitude aproximada de 800 metros dava a impressão de se estar num verdadeiro pedaço de céu, havia o Pico de Itapeva, ponto turístico de Campos do Jordão, situada no topo da serra. Centenas, milhares, centenas de milhares fariam daquele berçário ecológico e espiritual seu lugar predileto de peregrinação! Imbuído de fé, o grupo destinado a estabelecer a Comunidade, liderado, à distância, por Hrdayananda das Goswami, embasava seus esforços nas palavras das Escrituras, que, em última análise, eram as mesmas do Mestre espiritual. Duros foram os primeiros meses, assim como o foram todos os vindouros. Mas só bastava-lhes a lembrança de passagens da Bhagavad Gita como “Eu sou a vitória, a aventura e a força dos fortes”, que o entusiasmo abria-lhes a porta do coração para sentirem-se renovados pelo prazer espiritual. Isso era tudo o que necessitavam para continuarem suas buscas individuais e coletivas de auto-realização. Por isso, agiam como guerreiros destemidos, no front, contra qualquer ideologia dominante que ocultasse às pessoas a natural existência da alma e de um Deus pessoal que reciproca amorosamente com Seu devoto. Decisão tomada. A compra não deveria demorar. No dia 24 de abril de 78, no Cartório de Notas e Ofício de Pindamonhangaba, foi efetuada a compra de ‘Uma Sorte de Terras’, com área de 55, 66 ha., devidamente registrada no INCRA, cuja compradora, a ISKCON, teve como representante de pessoa física Lúcio Valera, Loka Saksi das, que desde seu primeiro contato com os ensinamentos de Srila Pabhupada, atuou dinamicamente na parte administrativa não só de Nova Gokula, bem como do Movimento no Brasil. Ambhujaksha das ficou incumbido pela presidência. Selado contrato e pagamentos, os ideais deveriam agora transferirem-se do pensamento para a prática. Em 22 de junho, fora publicada a Ata da Terceira Reunião da Diretoria Geral de Nova Gokula, formada pelo presidente David Earl Roberts (Mahavira das?), pelo secretário José Cláudio Belfort do Nascimento ( ), e pelo tesoureiro Júlio César da Silva ( ). Eles, juntamente com Lucio Valera (Loka Saksi das), criavam a ramificação da Sociedade em Pindamonhangaba, pois, sendo o Movimento ainda incipiente no Brasil, cujo centro era em São Paulo, perceberam que era necessária autonomia para tomadas de decisões mais dinâmicas. E uma dessas primeiras grandes decisões foi a organização do 1º Festival Anual de Janmastami e Vyasa puja, que foram realizados dos dias 24 a 28 de agosto do mesmo ano. Aquele seria um evento grandioso, idealizara Hrdayananda Das Goswami e os outros líderes. Convidariam pregadores renomados como Pancadravida e Radha-Krishna Swamis, além de todos os presidentes de Templos da América Latina, mulheres, crianças, e simpatizantes do Movimento. Hrdayananda das Goswami, também convidado de honra, exigia calorosamente a presença de todos os seus irmãos espirituais e de seus discípulos. O evento aconteceria ao estilo das grandes inaugurações de Templos realizadas por seu Mestre espiritual, A. C. Bhaktivedhanta Swami, em muitos dos países ocidentais e em cidades sagradas da Índia. No dia 27 de junho, Mahavira dasa, assim escrevia, convocando a todos para que participassem da ocasião: “(...) Já começamos a construir um grande templo e acomodações para todos os devotos e convidados. Pedimos apenas que todos venham munidos de cobertores para dormir. Este ano, seguindo o exemplo do festival de Mayapur, haverá uma taxa de participação para cada devoto. A taxa será de apenas Cr$ 200,00 para cada devoto; crianças e presidentes não pagam! A maior parte desta taxa irá para cobrir as despesas com prasada, que será a melhor que vocês já experimentaram no Brasil. E o resto para cobrir as despesas gerais do festival.” Tomados por felicidade transcendental, pessoas de várias localidades da América começaram a atender àquele chamado, fazendo antecipadamente os depósitos das taxas para garantirem sua presença. E como deixariam de vir a um momento histórico tão singular, que ficaria marcado para sempre em suas recordações? Afinal de contas, Sri-Sri Radha-Gokulananda, Sita-Rama-Laksmana-Hanumanji e Adi-Gaura-Nitai seriam instalados para legitimarem Nova Gokula como o maior e mais belo Dhama da América Latina. Por outro lado, os Pioneiros se mobilizavam para fazer tudo a tempo. Excitados, tinham que marchar contra o relógio, pois quase quatro meses foi-lhes o prazo dado pela Providência para que preparassem minimamente Nova Gokula, tornando-a apta a sediar aquele grande Festival. Outros devotos e devotas foram imediatamente convocados a fixar residência. E seus filhos, que amenizavam a dureza e austeridade porque passavam os primeiros habitantes, legitimavam o início da constituição de uma sociedade, na qual os valores da Bhakti-Yoga, essenciais para o real cultivo de paz, seriam repassados de geração a geração. Assim, as muitas funções deveriam ser distribuídas. Dentre eles, vieram Manu Putra das que, usando uma máquina de limpar e aplainar o solo, preparou a área onde construiriam o primeiro Templo. Lila Smarana das, com sua experiência em construção ajudou a levantar os muros do Templo. Sem falar de tantos outros participantes, muitos deles lembrados ou esquecidos pela história, que deixaram seu legado: fossem flores colhidas para confeccionar guirlandas para as Deidades, fosse o deslocar de panelas gigantes de um local para outro, fosse dar aulas sobre a filosofia, durante tardes nubladas, para as crianças que habitavam o Dhama... Mas uma coisa era certa: nada passava desapercebido aos olhos do Supremo Senhor. “Quem tem plena consciência de Mim, conhecendo-Me como o beneficiário último de todos os sacrifícios e austeridades, o Senhor Supremo de todos os planetas e semideuses, e o benfeitor e benquerente de todas as entidades vivas, alivia-se de todas as dores e misérias materiais.” (Bhagavad Gita 5. 29) E neste mesmo ano, os devotos conseguiram fazer com que o projeto da Comunidade e sua ideologia fossem amplamente divulgados. Os fôlderes propagavam a meta de reviver um paraíso perdido, uma alternativa frente aos grandes centros urbanos, poluídos e agitados. Falavam sobre a importância de se colocar Deus como o centro das atividades humanas, do serviço devocional a Krsna. Pautados nesse conceito comum, a construção de uma Comunidade mais unida e harmoniosa seria possível. Os mapas indicavam a localização da Fazenda e como chegar nela. Assim, foram muitas as mãos que trabalharam, que edificaram uma nova perspectiva para o Mundo. Eram como pássaros tecendo um ninho. Um ninho de proteção, um abrigo divino. Muitos se foram, muitos ficaram, mas todos obtiveram sua cota. Hrdayananda das Goswami conheceu A. C. Bhaktivedhanta Swami, quando este ministrava uma palestra na Universidade da Califórnia. Hrdayananda sempre fora estudioso acadêmico, doutorando-se, anos mais tarde, em estudos indianos e da língua sânscrita pela Universidade de Harvard. Em 08 de fevereiro de 1970, foi iniciado por Srila Prabhupada. Em 74, Hrdayananda foi nomeado membro do Corpo Administrativo da ISKCON e foi incumbido pela propagação da Consciência de Krsna na América Latina. Responsável também por Nova Gokula, ele alternava suas vindas com inúmeras viagens que fazia por outros países, para concretizar um dos sonhos de seu mestre que era o de propagar Comunidades em muitos lugares do mundo. Proposta ousada, porque visava à multiplicação de locais considerados sagrados – a Índia era a referência, pois lá havia cidades que desde tempos imemoriais se dedicavam ao cultivo de conhecimento acerca de Krsna, como Vrndavana, por exemplo. Entretanto, quando o coração não é pequeno, os limites externos se tornam transponíveis. Assim, Hrdayananda, ou Srila Acaryadeva, como costumava ser carinhosamente chamado por seus discípulos e irmãos espirituais, orientava o grupo de pioneiros mesmo à distância. Além do mais, muitos deles já tinham obtido experiência e maturidade de vida, dados seus diferentes tipos e níveis de conhecimentos prévios acerca do mundo e das pessoas. Porém, em se tratando de conhecimento espiritual, eram como adolescentes, singrando mares, às vezes, revoltos, às vezes, calmos. Por isso, toda atenção e cuidados eram poucos. Afinal, não era tarefa fácil deixar para trás todo um conjunto de hábitos e valores, comuns e predominantes no Ocidente, para cultivarem conscienciosa e substancialmente valores que não eram indianos, mas eternos porque estimulavam o aprendizado sobre matéria e espírito, sobre Deus e Sua energia material, prisão da alma pura. Assim, os preparativos para o primeiro grande Festival continuavam, sob cuidados, à distância, de Hrdayananda das Goswami, e direto dos pioneiros. A 18 de julho, Loka Saksi das escrevia ao comandante do 2º Batalhão de Engenharia de Pindamonhangaba, solicitando o empréstimo de 12 barracas de acampar para abrigar alguns dos membros durante o evento. Notavelmente, as acomodações eram poucas e as condições de infra-estrutura, escassas, embora os residentes tivessem se esforçado o máximo para receber bem a todos. Porém, o desejo ardente de promoverem – os pioneiros residentes – e de participarem – convidados de vários países – do Festival superaria o desconforto que pudessem vir a ter, pois compreendiam que seus esforços, agora, deveriam se voltar para a satisfação de Krsna e do mestre espiritual. Mas não faziam isso cegamente, não seguiam passos perdidos ou duvidosos. Faziam o que faziam porque sentiam em seus corações a convicção da fé, que se intensificava mais e mais, com prazer espiritual, com satisfação. O retorno, portanto, era o conhecimento experimentado, graças à aceitação da missão e ideais de quem os conduzia naquela jornada: A.C. Bhaktivedhanta Swami. Além do mais, o anúncio-convite escrito por Mahavira das era bastante tentador: “(...) O que vai acontecer durante o Festival: (...) Iniciações; aulas nectárias de Maharaja Hrdayananda, Panchadravida Maharaja e Radha-Krsna Swami; kirtans liderados por Panchadravida Swami; haverá toldos como os da Índia e o prefeito de Pinda já garantiu sua presença; seminários sobre temas variados para trocas de conselhos e experiências, como seminário de sankirtana comandado pelo melhor sankirtaneiro do mundo, sua Graça Advaya das, e seminário de adoração às Deidades com Visvavandya Prabhu; teatro, cinema com os novos filmes de Yadubara e shows de slides (...); à noite, em volta da fogueira, ouviremos histórias inéditas de Krsna e de Srila Prabhupada narradas pelos devotos mais antigos; durante o dia, divirta-se na companhia dos devotos, tome um banho no novo Yamuna, ou vá conhecer as florestas, as montanhas ou as planícies que há aqui em Nova Gokula. Maharaja [1] falou que depois de Mayapaur e de Vrndavana este é o lugar mais bonito deste planeta. E não se esqueça de conhecer o Monte Krsna, o Monte Baladeva e o Monte Ramacandra. PS: No momento que assinava esta carta, recebi um telefonema de Sua Divina Graça Hrdayananda Maharaja o qual falou que devemos nos preparar, pois ele vai trazer nada menos que 100 devotos da Bolívia, da Colômbia, do Peru, da Guatemala e do Equador. Além disso, ele mandou dizer que está tentando adquirir Radha-Gokulananda grande de Los Angeles, que vão ser as Deidades mais belas do Movimento.” O Festival aconteceu com sucesso naquele ano. A impressão deixada, de fato, foi a das melhores, embora alguns dos planos não pudessem ter acontecido naquele instante, como foi o caso da instalação das três Deidades, sonho que se concretizaria pouco tempo depois. Quatro meses foi pouco para organizarem tudo com perfeição. Mas ficaram felizes os pioneiros por terem projetado o início de uma era, de uma época bem ali, num cantinho quase perdido, no Ribeirão Grande. Porém, tão vivo e presente para os que em Nova Gokula habitavam ou até mesmo para os que estavam só de passagem, à procura de novos ares, de novas descobertas. Era impossível estar naquele lugar, pisar naquele solo, mesmo que por um instante, e esquecê-lo facilmente. Era impossível. Mas então, qual o segredo? Que mistério recôndito habitava ali? Indecifrável ao olhar de muitos e revelado a outros, era Krsna, na Forma das Deidades manifestas no Templo – processo de adoração aliás muito antigo e descrito pormenorizadamente nas Escrituras e Textos milenares védicos – que magnificava o local no sopé da Mantiqueira, dando à atmosfera seu plus espiritual, divino e inspirador. Porém, a realidade dos pioneiros, que trabalhavam arduamente para construir o local era outra. Internamente, os conflitos e tensões humanas se estabeleciam num convívio em torno da busca da pureza e espiritualidade. Afinal, as formações eram diversas e suas bagagens culturais também. De 79 aos dias atuais: um longo passo para a Memória.
Hrdayananda das Goswami, carinhosamente chamado de Srila Acaryadeva, era o mentor de todos, fossem nos momentos em que se encontrava distante ou naqueles em que compartilhava mais aproximação com seus discípulos e irmãos espirituais. Naqueles anos, ele vinha com freqüência ao Brasil. Cerca de duas ou mais viagens ao ano. E sua influência era percebida em todos os campos de pregação não só do Brasil, bem como de toda a América Latina. Mas Acaryadeva, além de se dedicar com afinco às questões administrativas da ISKCON, também se destacou no campo da erudição devocional, pois foi incumbido por devotos maduros de continuar a tradução dos tomos restantes do Shrimad Bhagavatam, obra na qual A.C. Bhaktivedhanta Swami Prabhupada dedicara sua vida e alma para difundir nos países ocidentais. E Acaryadeva aproveitaria suas estadas em Nova Gokula para iniciar esse grandioso trabalho. 80 e 81 ficaram marcados pelo progressivo desenvolvimento de informação circulante. Houve incentivo à escrita e à propagação de comunicação. Foi o período em que teve início os Boletins Informativos, cujo precursor parece ter sido Prapanna das, a pedido de Acaryadeva. O “Boletim Vaishnava” contemplava a realidade de várias localidades ligadas à expansão e propagação do Movimento. Essas localidades ou focos de atuação, chamados Yatras, enviavam dinheiro para o desenvolvimento de Nova Gokula. Posteriormente, publicou-se o informativo “Espírito de Nova Gokula”, também incentivado por Acaryadeva. E, embora seus números não se estendessem por muito tempo, esse boletim tentava construir uma visão, uma identidade para a Comunidade emergente, tida como um projeto nacional de Acaryadeva. De fato, era o cisne da intelectualidade o maior incentivador do crescimento de Nova Gokula. Assim, uma linguagem comum devia ser compreendida e aceita em prol do coletivo que se formava. Famílias começavam a vir de várias regiões da América como Phanindra – que sucedeu Ambujaksha na presidência – e Mukti Hetu, Guru das e Devahuti, dentre outras. As administrações se sucediam a pequenos intervalos de tempo. Aliás, essa sempre foi uma característica marcante do setor público administrativo da Comunidade: administrações efêmeras. Ambujaksha foi o primeiro presidente. Ele também foi incumbido de trazer as Deidades grandes de Radha-Gokulananda, que seriam instaladas mais tarde. A chegada de Guru das no final de 79 foi fato importante para Nova Gokula. Dedicando-se em desbravar as terras desconhecidas, em abrir as fronteiras cobertas de matagal, ele pôde conhecer o vasto território ainda não explorado. E, com seu conhecimento de cultivo de terras e construção, foi braço direito dos líderes no setor de construção, reflorestamento, urbanização das vilas e construção de casas, jardins e fontes. Ele próprio também experimentou a administração por várias vezes. Em 82, houve a compra de outra faixa de terra para a Comunidade. Chamava-se “Sítio do Doca”, com 24,2 hectares. Durante a administração de Lilananda Prabhu, em 84, Nova Gokula começa a vislumbrar mais desenvolvimento, tanto material quanto espiritual. Parece comum a opinião da época vê-lo como um presidente carismático e entusiasta, a despeito das dificuldades e austeridades por que passavam os moradores. Às vezes, faltava até mesmo comida, que naqueles anos era preparada numa cozinha coletiva. Neste mesmo ano, Acaryadeva faz visita Nova Gokula. Sua presença sempre estimulava os devotos e devotas a não desistirem da vida espiritual, cujos testes e agruras eram vistos de maneiras variadas: alguns não suportavam e desistiam, outros, permaneciam e ficavam. Acaryadeva tentava reunir o maior número de apoio ao projeto. Ele sabia o quanto comunidades rurais eram importantes para a continuação da missão de Srila Prabhupada. Naquele ano também começou a produção do “Vida Simples Consciência Elevada”, publicado por Gokulotsava, cujas tiragens variavam de 1000 a 2000 exemplares. Havia um sistema de assinatura mensal. E os colaboradores eram muitos. Esse Informativo foi o que teve vida mais longa – chegando ao 18º número. O Próprio Srila Acaryadeva reconheceu os serviços por ele prestados na seguinte declaração, escrita a próprio punho, datada de 7 de novembro de 85: “Pelo presente venho reconhecer e agradecer o serviço devocional (bhakti Yoga) prestado em período de 1976 – 1985 por Gokulotsava das, que ajudou na distribuição de Literatura Transcendental, pregou em porto Alegre, cuidou das correspondências da ISKCON, deu cursos de correspondências sobre o Bahagavad-Gita, e editou um jornal sobre Nova Gokula. Queria ainda agradecer pelo desejo sincero dele de ajudar o Movimento de Srila Prabhupada, ISKCON, cooperando sempre com os líderes da ISKCON do Brasil. Com os desejos sinceros de seu avanço espiritual, Hrdayanada das Goswami”. Dando continuidade ao desenvolvimento urbano e paisagístico da comunidade, a Câmara Municipal de Pinda autorizou alguns devotos para que desenvolvessem um projeto ousado de hotelaria e hospedagem. Assim, ao mesmo tempo que havia a simplicidade da vida, beirando, muitas vezes, à pobreza, havia um incentivo ao investimento na comunidade, no setor sócio-econômico. Afinal, geração de emprego e empreendimentos eram necessários para a manutenção e auto-sustentabilidade de seus moradores. Nova Gokula sempre foi uma terra muito especial. E os administradores, desde cedo, sabiam que o potencial dela residia mesmo no turismo, embora algumas iniciativas de cultivo de hortas e produção de leite e derivados terem sido bem sucedidas. Mas era preciso se lançar em outras áreas de sustentabilidade. Produção de incensos foi uma delas, que ficou aos cuidados de Guru das Prabhu. Em 84 também houve uma eleição de uma nova diretoria para o Comitê de Planejamento. Faziam parte dela Param Gatit Swami (presidente), Isvara Swami (vice), Lilananda Prabhu, Gurudas Prabhu, Visuakarma Prabhu e Dhanvantari dasa (secretário). A vigência dela foi até 85. E parece, o que se consta pelas várias atas de reuniões e resoluções, uma das mais atuantes e engajadas, senão a mais de todas. Época áurea de florescimento infra-estrutural (construção de novas casas para as famílias, formação de departamentos de distribuição de livros, de pecuária, de agricultura, de flores, de recepção, de educação, de manutenção e construção, de fábrica de incenso, etc.,) 84 foi marcante e socialmente agitado. Poderosa e próspera, a BBT (Bhaktivedhanta Book Trust) era que financiava a maioria dos projetos e iniciativas. O projeto, então, ia tomando forma pois, devido à intensa atividade social e incrementação de projetos e construções, a proposta de retiro espiritual aos poucos vai se diluindo para amadurecimento da idéia de cidade e dinamismo. Afinal, conforto para os habitantes era algo imprescindível para uma vida espiritual saudável, ao contrário do que pensariam muitos ao fazerem uma idéia deturpada de renúncia. O reflorestamento também foi uma prática adotada. Muitas mudas vieram de São José dos Campos. A parte elétrica também teve que ser ampliada para atender as novas demandas. Com a vinda de Dhanvantari das, a educação toma um salto. E a primeira escola para crianças – Gurukula – é organizada. Até então, a educação era informal. Não se tinha um método ou mesmo bases de sistematização curricular do ensino. Junto a ele estiveram outros devotos e devotas empenhados na educação como Kelyparayana prabhu, Sri Lalita devi dasi, Atsundara parbhu e mãe Ganga. Após a legalização do ensino médio e após a sede do Gurukula ter transitado por vários prédios na Comunidade, ele realmente se firma com a construção do projeto mais ousado de todos. Situado numa das partes altas da comunidade, o novo prédio teria muitas salas de aula, cozinha, área de lazer e cultura. Profissionais do ensino de Pinda se juntaram aos devotos, liderados por Dhanavantari, que em 85 tomara votos de renunciado. E o ensino médio também foi regularizado pelo MEC. O informativo daquele ano, o “Vida Simples Consciência Elevada”, setembro/outubro de 84 número 12, publicava entrevista com o diretor do projeto educacional, que fora inspirado por Hrdayananda das Goswami: “Nosso currículo é idêntico ao currículo o oficial do 1º grau. Porém, além das matérias tradicionais, nós ensinamos sânscrito e a filosofia do Bhagavad Gita e do Shrimad Bhagavatam. Isso permite que as crianças estabeleçam uma conduta filosófica prática desde o início de seu desenvolvimento intelectual, voltando-se para uma vida pura dedicada à satisfação de Deus.” A demanda pela nova perspectiva de ensino aumentava. Aos poucos, não apenas filhos de devotos procuravam o Gurukula. Mas também as crianças dos sítios e fazendas vizinhas. A comunidade continuava a crescer. As casas ficavam abarrotadas de pessoas. O informativo da época abriu seções para ensinar a Bhakti-yoga no lar. Eram iniciativas tímidas de discussão sobre a família e suas complexidades e problemáticas. Em 85, aconteceu um grande evento que marcou a representatividade de Nova Gokula no cenário atuante de Pindamonhangaba. Foi o Nono ENCA (Encontro de Comunidades Alternativas), que reuniu alternativos de todo o país. A característica do encontro era confraternizar a Era de Aquarius. Do dia 26 a 31 de julho, houve muitos grupos de reuniões e relatórios sobre imprensa alternativa, trabalho de cooperativismo, saúde, ecologia, uso de agrotóxicos, agronomia, terapias alternativas, apicultura, vegetarianismo, educação, artes, etc. O responsável pela organização geral foi Param Gati Swami. O Movimento foi representado por Kishora das, que ministrou um curso de culinária lacto-vegetariana. Em 86, chegou a ser cogitada a idéia de um dos líderes daquele Comitê, até então em vigência, lançar-se na candidatura pela Câmara de Vereadores de Pinda. Nova Gokula vivia um clima de crescimento, de estabelecimento de regras, de direitos e deveres sociais, de florescimento de um sistema educacional próprio. Essa auto confiança, experimentada na prática com vida espiritual era com certeza um sistema alternativo de vida perfeito. Por isso, poderia se estender à escalas maiores. Porém, quando uma sociedade vai se delineando, por força dos que a constituem, natural é o surgimento de conflitos e tensões. Os problemas também tornam-se mais evidentes. Nova Gokula, assim, passa por uma dura fase de ataque na imprensa. Casos ora inverídicos, ora verídicos, o fato é que o projeto da comunidade não podida parar. E, de uma forma ou de outra, com sucessos e solavancos, o ideal de espiritualidade permanecia, em meio a uma sociedade múltipla e constituída por muitos estamentos culturais e econômicos. Ainda mantida pelos recursos da BBT, Nova Gokula sentia-se, aos poucos, asfixiada pelas forças antagônicas ao ideal de espiritualidade pura. Mas, ainda assim, em meio às crises, ela crescia. Em 87 o novo Templo estava sendo terminado. Nessa época a Fundação Bhaktivedhanta, a co-irmã da ISKCON, começa a atuar em relação a Nova Gokula para proteção dos bens da Instituição. E foi também em 87 que o Colégio Varnashrama começou a funcionar, devido às dificuldades de educação das crianças que atingiam idade de 12 anos. O Colégio ficou aos cuidados de Atsundara das. Cooperaram ativamente Navayauvana prabhu e Ramadhanu Prabhu. Este sucede Kelyparayana, após sua saída em 92. No ano seguinte, houve a elaboração do 1º Plano de Eco desenvolvimento, durante a gestão de Purushatraya Swami. Mas naquele ano, as atas das reuniões já indicavam sérias preocupações em relação à crescente evasão dos programas espirituais por parte dos moradores. Era um infeliz onda de desestímulo que começou a assolar a Comunidade. Onda que repercutiria por um longo trecho da década seguinte. Todos os artigos
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